Saúde mental e imigração: os desafios invisíveis da adaptação

 Saúde mental e imigração: os desafios invisíveis da adaptação

A saúde mental é um tópico tão importante, mas é comum ser negligenciada, pois, geralmente, a “dor” não é física em um primeiro momento. Mudanças significativas na vida, como a perda de um ente querido, divórcio e o nascimento de um filho podem impactar profundamente o estado emocional e psicológico de alguém. Aqui, vamos abordar especificamente a mudança do país natal e a adaptação cultural. Longe da terra natal, muitos imigrantes enfrentam desafios silenciosos de adaptação, pertencimento e identidade.

Imigrar vai muito além de atravessar fronteiras geográficas. Envolve um deslocamento profundo da identidade, das raízes e do sentimento de pertencimento. Nesta matéria, conversamos com o terapeuta junguiano Ricardo Lauricella, que nos ajuda a entender como a psicologia analítica enxerga a experiência do imigrante e como ela pode ser um processo de transformação e autoconhecimento.

Quando afetos perdem tradução
De acordo com Lauricella, para muitos brasileiros que vivem nos Estados Unidos, deixar seu país para viver em um outro é um ato corajoso e cheio de esperança, mas pode desencadear conflitos emocionais, ansiedade, solidão, perda de identidade, luto cultural e um profundo sentimento de desenraizamento. “A experiência migratória é um rito de passagem psíquico, nem sempre consciente, mas sempre transformador”, afirma.

O terapeuta explica que a personalidade pode se fragmentar entre o que era familiar e o que agora é estrangeiro. “Até mesmo o idioma deixa de acolher, expressões não fazem mais sentido, afetos perdem tradução”.

Um exemplo simbólico e comum entre brasileiros nos EUA é o
momento da refeição. Nos EUA, é comum que o garçom traga a conta sem que você peça, pois ele é prático. Porém, Lauricella explica que, para muitos brasileiros, isso fere. “Tem gente que se sente expulsa”. No Brasil, o garçom é quase um parceiro de mesa: conversa, brinca, interage mais. A conta só vem quando a despedida é desejada. “São nesses detalhes invisíveis que mora o choque cultural, e é aí que a psique (tudo o que se passa dentro de nós: pensamentos, emoções, memórias, sonhos, desejos) sente que não pertence, mesmo estando fisicamente presente”, esclarece Lauricella.

Resgate da sensação de pertencimento
Em uma rápida enquete feita em minhas redes sociais, verifiquei que as pessoas que se sentem totalmente pertencentes ao país que se mudou são as que estão há muitos anos no país, tem grandes laços de amizades por perto, tem a carreira consolidada, e algumas já construíram família. Porém, a maior parte de imigrantes tem momentos que se sente pertencente ao país e, em outros, não.

De acordo com o terapeuta, a sensação de pertencimento pode ser reconstruído a partir de novos vínculos afetivos, símbolos e vivências. “Algumas pessoas costumam exagerar e chegam a cortar laços com o país de origem, mas não é preciso tanto. É possível integrar todos os lados. Para isso é preciso dar chance para perceber que precisará dar espaço para aprender uma nova cultura, sem julgamentos”, explica.

A experiência migratória poder ser traumática ou transformadora, mas também pode ser ambas. “Depende de como se acolhe a dor e se dá sentido ao deslocamento. Por isso, estar “disposto” é fundamental. Você não precisa esquecer suas raízes, mas precisa abrir espaço para o novo”, afirma Lauricella.

Como lidar melhor com as emoções
Na minha humilde enquete, pedi para que imigrantes escolhessem o sentimento mais recorrente entre os quatro listados: gratidão, ansiedade, solidão e de realização. Bom, ninguém escolheu a última opção, mas tenho impressão que poderia ser assim também para quem não é imigrante. Gratidão e ansiedade empataram como os sentimentos mais recorrentes, sendo que as pessoas que se sentem mais gratas são, naturalmente, as mesmas que responderam que se sentem totalmente pertencentes ao país que se mudaram. As demais sentem mesmo ansiedade e solidão.

Cada pessoa processa as coisas de um jeito, mas Lauricella afirma que o silêncio adoece. “Falar é o primeiro passo para se reconectar consigo mesmo e construir pertencimento, inclusive em uma nova cidade ou país”, diz. Na minha enquete eu também questionei se os imigrantes costumam conversar sobre suas emoções com alguém que confia. A maioria disse que sim, mas algumas ainda não tem esse costume com freqüência ou guardam para si.

Ao imigrar sozinho, Lauricella diz que é crucial ir além das “bolhas” de comunidades só de brasileiros ou de outros estrangeiros. “Manter conversa com amigos ajuda, mas não substitui as novas conexões com os nativos, que pode ser em atividades locais, como clubes, aulas ou até mesmo centros religiosos”, sugere o terapeuta.

Lauricella enfatiza a importância da terapia como ajuda para lidar com as emoções, principalmente com a possibilidade de fazer as sessões online e na sua língua nativa. “É possível encontrar terapeutas certificados ou clínicas escola por valores acessíveis ou gratuitos”, afirma.

Ele ainda sugere criar um espaço com símbolos da terra natal e do novo país para integrar as duas coisas; escrever cartas para si mesmo, relembrando seus objetivos, o que te fez mudar de país, o que gostava na sua terra natal e o que gosta na atual. E um dos mais interessantes e simples: respirar lembrando que “eu tenho raízes onde eu estiver”.

Por Mirela Claudino
Jornalista e RP especialista em comunicação estratégica com foco em bem-estar

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